2 de maio de 2017

O PRIVILÉGIO


É triste andar por aí e ouvir com frequência que o departamento de música é o que dá mais problema na igreja e que os músicos são temperamentais, hipersensíveis e de difícil trato. Mas não deveria ser assim, muito pelo contrário. Entretanto entendo que a culpa não é só dos músicos, que sim, via de regra, são seres estranhos mesmo e possuem personalidades sui generis, mas que, exatamente por isso, deveriam receber uma atenção toda especial por parte de seus líderes espirituais. Seus discipuladores deveriam despertar neles, através do ensino bíblico devocional, o senso de privilégio. Isso com certeza os ajudariam muito e evitaria que eles tivessem uma reputação tão estereotipada. Às vezes tenho vontade de perguntar aos líderes que vêm reclamar dos músicos, quanto tempo eles têm investido, quanta oração tem sido feita, quanto companheirismo eles têm dedicado aos seus músicos. O músico precisa ser um profundo conhecedor das Escrituras e uma pessoa madura na oração, dada à importância de seu trabalho, mas dificilmente você encontra um músico que tenha um amigo mestre de espiritualidade que caminha com ele e cuida de seu crescimento espiritual. É um privilégio e uma grande honra ser músico, e, por essa razão, grande é a sua responsabilidade. Essa verdade precisa ser proclamada em alta voz até que os músicos voltem a ter esse sentimento e sejam tomados novamente por essa avassaladora consciência de privilégio. Para que o músico comece a ter uma Idea da honra e do benefício que lhe foi concedido é necessário que ele conheça e se aprofunde cada vez mais na consciência de sua inutilidade essencial. A música é algo tão sobrenatural e elevado que o músico facilmente chega a pensar e até mesmo a se convencer de que ele é quase um ente superior “semidivinizado”. Mas não é. Sim, é bom encararmos a simples realidade de que Deus não precisa de nenhum de nós para absolutamente nada. Tudo o que a igreja de Cristo vem tentando fazer em mais de dois mil anos de história o Senhor Deus, com apenas uma palavra, poderia fazer com perfeição. É uma verdade admirável que Deus tenha resolvido contar conosco para a pregação do Evangelho e expansão do reino de Cristo aqui na terra. Foi Deus quem criou a música e a transmitiu às Suas criaturas. É Ele quem nos dá vida, inteligência, saúde e talentos pra que sejamos músicos. Toda a criação O louva o tempo todo com extrema devoção, e Ele também é muito bem servido com a melhor espécie de música que ressoa ao redor de Seu trono glorioso. Não fosse a graça de Deus revelada em Cristo, nós não teríamos o direito de oferecer música ao Senhor e seríamos como os anjos caídos aos quais esse privilégio foi retirado e por isso foram destinados ao silêncio por toda a eternidade. A verdade é que Deus mesmo estende Sua mão a nós e nos oferece essa graciosa benção de podermos louvá-Lo com música. E essa já é toda a nossa recompensa. Você percebeu o privilégio? O que você sentiria se um poderoso soberano, rei de um fabuloso e vasto império, lhe convidasse para ser um menestrel em sua corte? Sentir-se-ia lisonjeado, prestigiado, valorizado? Então me diga, como deveria se sentir o músico que foi posto para servir num reino eterno diante de um Soberano que detém todo poder em Suas mãos e para quem “as nações são consideradas por ele como um pingo que cai de um balde e como um grão de pó na balança; as ilhas são como pó fino que se levanta”.(Is 40:15)? Quem somos nós para termos o direito de fazer música para o Deus Altíssimo? Tocar ou cantar na igreja, compor canções para que o povo de Deus O louve é uma atividade extremamente digna e de valor inestimável. Pois a igreja é preciosa ao coração do Senhor Deus. É a noiva de Cristo. A igreja é composta de pessoas por quem Cristo morreu, pessoas que um dia irão resplandecer como o sol. Portanto, servir num lugar assim é grande honraria concedida a alguém. O músico pega seu instrumento e sai pela rua em direção ao ponto de ônibus para ir a um ensaio ou um culto. Ele passa pelos bares e vê aquela euforia, aquele ambiente onde supostamente tudo é alegria e ouve os aplausos e um pouco da música que está sendo tocada ali. O que o faz prosseguir para tomar seu ônibus com uma absoluta certeza de que ele não está desperdiçando sua vida? É o conhecimento e a consciência do privilégio. Ele sabe que as luzes multicores das casas de show, que os aplausos, que os prazeres ali obtidos são um grande nada comparados com a beleza de Cristo. E mesmo que em sua igreja ele não seja valorizado e, quem sabe, até perseguido, porque tem uma tatuagem ou cabelo verde, ou qualquer dessas coisas que não têm a mínima importância, pois o que vale é ser ele uma nova criatura, mesmo assim ele vai alegre e comovido porque sabe que canta e toca para o Único e Verdadeiro Deus, Senhor de tudo e de todos. E sabe que, de alguma maneira, seu trabalho está sendo usado para proclamar a Cristo, atividade essa que os próprios anjos gostariam de realizar. Esse músico feliz sabe bem que Deus ouve sua canção, sua pobre, pequena e desnecessária canção, mas que, oferecida em nome de Cristo, é aceita, e faz com que o Senhor Deus sorria e segrede ao seu coração: “Muito bem meu pequeno servo, Eu gostei disso…” Ah, que privilégio servir a Deus com música! Possivelmente só quando chegarmos ao céu é que realmente saberemos da preciosidade que foi colocada em nossas mãos. Para se obter e aprofundar cada vez mais o senso de privilégio o músico precisa seguir o conselho do profeta Oséias: “Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor…(Os 6:3)“. É o conhecimento de Deus que fará o músico suportar as provações e prosseguir sereno servindo humildemente na casa de Deus e que o fará ter sempre um sorriso de desprezo no canto da boca para todas as propostas de glórias e riquezas humanas. O conhecimento de Deus fará com que o músico se dê conta da preciosidade do tesouro que ele carrega no peito. O músico que conhece ao Seu Deus dará tapinhas nas costas do rei Davi dizendo: “Você estava certo quando escreveu”, “ Um dia nos teus átrios vale mais que mil…(Sl 84:10).” O músico que conhece a Deus vive tranquilo, feliz, pacificado, realizado. Ele não deseja estar em outro lugar a não ser o lugar onde Deus mesmo o colocou. Ele despreza as luzes da ribalta e a purpurina. Ele sabe muito bem que não foi chamado para ter uma “carreira de sucesso”, mas sim para realizar um “ministério” na casa de Deus. Ele não está “à venda” e por isso não pode ser “comprado”. Ele pode dizer com segurança esboçando um sorriso confiante: “Porque eu sei em quem tenho crido” (2 Tm 1:12).

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