31 de dezembro de 2015

OBEDIÊNCIA ABSOLUTA
"Presta atenção à natureza que te rodeia. Nela tudo é obediência, obediência absoluta; aqui não ocorre meramente (como entre os homens) que, em razão de ser Deus onipotente, nada se faz, sequer o mínimo, sem sua vontade; não, aqui é assim porque tudo é obediência absoluta. E há nisso enorme diferença; porque uma coisa é que a desobediência humana mais pusilânime ou obstinada, a desobediência de um só ou de toda humanidade, nada consiga contra a vontade de Deus, o onipotente, e outra distinta é que sua vontade se faça porque tudo lhe obedece absolutamente, porque não há vontade outra fora da sua nem no céu nem na terra; e eis o caso da natureza. Na natureza vale o que afirma a Escritura: "que nem sequer um pardal cai por terra sem a vontade do Pai"; o que não sucede simplesmente porque ele é o todo-poderoso, mas porque tudo é obediência absoluta, e sua vontade, a única; não se ouve a menor objeção, nem uma palavra, nem um suspiro contido; o pardal obediente cai ao solo com obediência absoluta, se esta é a vontade de Deus. O assobio do vento, o eco do bosque, o murmúrio do riacho, o zumbido do verão, o sussurro das folhas, o ruído da erva, cada sonido, qualquer som que percebas, tudo é submissão, obediência absoluta, e podes ouvir a Deus em tudo, da maneira que podes ouvi-lo na música que forma o movimento obediente dos corpos siderais. E o progressivo brio do tempo, e a ligeira flexibilidade da nuvem, e a fluência gotejante do mar com sua coesão, e a celeridade do som, e a ainda maior da luz: tudo é obediência. E o pontual nascer do sol, e seu poente não menos pontual, e a mudança repentina dos ventos, e o fluxo e o refluxo das marés às horas fixadas, e a concórdia da rotação exata das estações: tudo, tudo junto é obediência. Sim, se houvesse uma estrela no céu, e um grão de pó sobre a terra, empenhados em suas próprias vontades, ambos seriam aniquilados no mesmo momento e com facilidade. Porque na natureza tudo é nada, entendendo-o assim: tudo é nada distinto da absoluta vontade divina, e cessa de existir no momento em que não seja incondicionalmente vontade de Deus."
— Søren Kierkegaard, in: "Os lírios do campo e as aves do céu" (1849), tradução de Henri N. Levinspuhl, p. 258-259.

Que nossa obediência seja como a dos pássaros, uma "obediência absoluta", pois a "pior" obediência é a "obediência ressentida"; aquela que realizamos apenas porque é impossível ir contra a vontade de Deus, o todo-poderoso.