26 de novembro de 2012



Dedico este trabalho a todos que hoje carregam as marcas de um tempo, passado ou presente, em que por meio do texto sagrado do cristianismo foram e são barbaramente manipulados, enclausurados e distanciados da sua humanidade. Aos que, em um olhar retrospectivo em suas histórias, lamentam-se e se questionam sofridamente sobre como reaver e reconfigurar a própria vida e as escolhas moldadas a partir de uma castração da liberdade pessoal em nome da suposta Palavra de Deus. Ao clamor que diz: não é justo todo o tempo de clausura corroborado pelo nome de Deus e “seu livro”. Aos que hoje se veem às voltas com as marcas impressas pela manipulação do texto sagrado a fim de viabilizar interesses institucionais bastante às avessas da liberdade e da ética cristã. Aos que se encontram tentando retomar a vida depois de uma catequese que desfigura a mensagem evangélica, a imagem do próprio Deus e a vida humana em toda sua potencialidade e possibilidade. Vida diminuída por ser relativizada ante a clausura dos dogmas e tradições inegociáveis mesmo ante a contestação clara da proclamada “suprema verdade da Palavra de Deus”. Imprescindivelmente, a todos que ainda assim podem vislumbrar ao largo do caminho o descortinar do Deus de Jesus: Pai, misericórdia, graça, acolhida dos desprezados, absolutização da vida em detrimento da religião e seus usos e abusos da Escritura Sagrada, priorização da liberdade e da humanidade da pessoa. Um Deus que se revela em carne na pessoa do humano Jesus de Nazaré. Portanto, aos que desejam esquecer para lembrar, destituir-se dos saberes impregnados, abandonando a casca velha para renascer deixando a alma se despir como conclui o poeta:


O essencial é saber ver


Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida),


Isso exige um estudo profundo,


Uma aprendizagem de desaprender…


Procuro despir-me do que aprendi,


Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,


E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,


Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,


Desembrulhar-me e ser eu… (Fernando Pessoa)
(Texto do Blog :http://flaviagcosta.wordpress.com/)