7 de março de 2009

"SE EU FOSSE MAIS VELHA!"



Não estou com pressa de envelhecer. Mas...A velhice me initmida.Sei que na terceira idade não só perderei a impetuosidade típica dos jovens,como me tornarei mais vulnerável ás doenças degenerativas. Mesmo assim espero pelos meus dias de ancião, porque só os velhos podem dizer coisas proibidas aos jovens. Estou ansiosa para que chegue o tempo de poder dize-las.


SE EU FOSSE MAIS VELHA...


Eu diria aos mais jovens que desistam do sonho de galgar a fama em nome de Deus.Contaria que já presenciei o desespero de alguns que, tendo almejado se destacar como referenciais de sua geração vieram a descer do trem fatigados e destruídos pelo ônus da fama.Descreveria os bastidores de algumas “grandes” agências evangelisticas e de outras para-eclesiásticas, e como me enojei com a petulância de alguns evangelistas famosos. Falaria de minhas lágrimas, quando um deles afirmou que passaria por cima de qualquer pessoa desde que conseguisse estabelecer o que chamou de “reino de Deus”. Incentivaria os jovens a buscarem uma vida discreta sem o glamour do mundo, a preferirem a senda do Calvário.Pediria que optassem por beber o cálice do Senhor em vez de desejarem os loiros da glória humana.


SE EU FOSSE MAIS VELHA...


Eu alertaria aos mais jovens que ambicionam subir os degraus denominacionais sobre o perigo de chegar ao topo sem alma.Pediria que fugissem da ganância pela autoridade instituicional.Ensinaria a desejarem autoridade espiritual, que não vem de negociatas, mas de uma vida piedosa e íntima com Deus.


SE EU FOSSE MAIS VELHA...


Diria aos jovens que não se iludissem com o academiscismo. Eu lhes revelaria como alguns acadêmicos usam da erudição para se esconderem de Deus.Dria que certos eruditos são pessoas insuportáveis no contato pessoal e que eles também padecem dos mesmos males que todos nós: intolerância, indiferença e muita, muita soberba. Contudo,eu lhes pediria que fossem amigos dos livros. Pediria que lessem muito e diversificadamente, que usassem o conselho de Tiago na busca da sabedoria: “...A sabedoria, porém,lá do alto, é primeiramente pura; depois pacífica, indugente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento”(Tg 3.13,17).


SE EU FOSSE MAIS VELHA...


Eu dria aos mais jovens que tomassem muito cuidado para não gastarem todas as suas energias nos primeiros anos de ministério. Exortaria, ilustrando o serviço a Deus como uma maratona e dizendo que não adianta se apressar nos primeiros anos. Contaria os exemplos de tantos que se arrebentaram antes da linha de chegada.Quantos destruíram suas famílias e seus filhos no afã de serem úteis e produtíveis! Quando chegaram os anos da meia idade, já estavam estressados e cansados! Eu pregaria um sermão baseado em Mateus 16.26 e explicaria que, para Jesus, perder a alma tem um sentido mais amplo do que simplesmente morrer e ir para o inferno. Basearia minha mensagem na afirmação de que um pastor ou evangelista pode ganhar o mundo inteiro e acabar perdendo os afetos do cônjuge, os sentimentos dos filhos e dos amigos, a auto-estima, o sorriso, a capacidade de amar...Enfim, perder a alma!


SE EU FOSSE MAIS VELHA...


Eu diria aos mais jovens que não desejassem o espalhafato espiritual nem as demostrações exuberantes do poder carismático.Não hesitaria em alardear que muito daquilo que se rotula como demostração de poder espiritual nasce de uma mentalidade que busca levar as pessoas a uma falsa euforia religiosa.


SE EU FOSSE MAIS VELHA...


Eu diria aos mais jovens que a sexualidade é terreno minado e cheio de armadilhas. Contaria exemplos de ministérios que ruíram pela sensualidade. Alertaria que o grande perigo do sexo não vem da beleza, mas da solidão e do poder. Muitos naufragaram em adultéro porque se sentiram sós. Não tinham amigos verdadeiros.Viviam rodeados de pessoas,sem um amigo com que pudessem abrir o coração e pedir ajuda.Eu incentivaria os mais jovens a desenvolverem amizades, preferencialmente fora de seus quintasis denominacionais. Suplicaria que fizessem amigos com coragem de falar coisas duras, olhando nos olhos. Lembaria que são fiéis as feridas feitas por aquele que ama.


SE EU FOSSE MAIS VELHA...


Eu diria aos mais jovens que tomassem cuidado com os modismos teológicos, ventos de doutrina e novidades eclesiásticas.Falaria das inúmeras ondas que varreram as igrejas com pretensas visitações de Deus. Relataria a pobreza doutrinária daqueles que jogaram os evangélicos na paranóia da guerra espiritual. Imploraria que se mantivessem fiéis ao leito princi pal do evangelho, á doutrina dos apóstolos; que não deixassem de pregar a Cruz do Calvário.


SE EU FOSSE MAIS VELHA...


Eu diria aos mais jovens que não procurassem imitar ninguém. Lamentaria a tentativa patética de alguns de quererem ser clones de pastores e evangelistas de renome.Eu mostraria na Bíblia que Deus não nos cobrará por não termos ensinado com a destreza de Paulo, ou nos portado com a ousadia de Pedro, ou escrito com o mesmo amor de João. Teremos de prestar contas ao Senhor apenas por não termos vivido nossa própria identidade.


SE EU FOSSE MAIS VELHA...


Diria aos jovens que a obra que Deus tem para fazer em nós é muito maior que aquela que ele tem para fazer por meio de nós.Diria que somos preciosos como filhos e não como servos.Melancolicamente, falaria que na velhice muitos sentem saudades dos tempos que poderiam ter sido íntimos de Deus, mas acabaram chafurtados nos pântanos de sua própria vaidade. Diria que na velhice muitos choram por saberem que o tempo da partida está próxima e que não escolheram a melhor parte, como fez Maria.
Eu deveria ter esperado para dizer essas coisas quando estivesse mais velha.Por impetuosidade acabei dizendo antes do tempo, contudo, acredito que não me arrependerei de tê-las dito agora.


(Adaptação do texto escrito por Ricardo Godim editado em junho de 2006 –“O que os evangelicos não falam”,páginas 184 à 189).